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domingo, 25 de janeiro de 2026

Estudo da UFF mostra que 60% da costa do estado do Rio está vulnerável às mudanças climáticas

Com a perda de habitats naturais do litoral fluminense, aumenta-se o risco de erosão e inundação

A Praia de Atafona, em São João da Barra (RJ), fica a cerca de 50 Km da divisa com o Espírito Santo, e sofre do avanço do mar há 45 anos | Foto: Divulgação/UFF

Tempestades mais intensas, ressacas frequentes e o avanço do nível do mar já fazem parte da realidade de quem vive no litoral do estado do Rio de Janeiro. Esse cenário impulsionou a elaboração de um estudo conduzido pelo doutorando Igor Henud e pelo professor Abílio Soares, da Universidade Federal Fluminense (UFF), que revela que aproximadamente 60% da costa fluminense apresenta níveis intermediários ou altos de vulnerabilidade costeira, tornando extensas áreas mais suscetíveis a processos de erosão e inundação.

Com cerca de 1.160 quilômetros de extensão, a zona costeira fluminense abriga 33 municípios e concentra aproximadamente 83% da população do estado, configurando-se como um território ao mesmo tempo sensível e fundamental para o desenvolvimento socioeconômico. No entanto, essa faixa enfrenta pressão crescente da urbanização desordenada, do turismo de massa e da exploração econômica intensiva, fatores que aceleram a degradação ambiental e comprometem a capacidade de resposta aos eventos extremos.

Para chegar ao diagnóstico, os pesquisadores utilizaram o modelo de vulnerabilidade costeira do programa InVEST, que integra variáveis ambientais e socioeconômicas, como densidade populacional, presença de infraestrutura logística e áreas prioritárias para a conservação da fauna e flora. Os resultados indicam que a supressão contínua de habitats naturais intensifica os riscos ambientais e amplia a exposição do estado a desastres de maior magnitude no futuro.

Publicado na forma de artigo científico “Coastal resilience and adaptation strategies: Natural habitats for coastal protection and Atlantic forest restoration on the coast of the Rio de Janeiro state”,no Internacional Journal of Disaster Risk Reduction, o estudo destaca o papel estratégico dos ecossistemas naturais na mitigação de riscos associados à erosão e às inundações costeiras, além de propor estratégias de adaptação baseadas na natureza como alternativa eficaz às soluções tradicionais de engenharia.

Cenários mais críticos de vulnerabilidade

Os piores indicadores de vulnerabilidade costeira concentram-se nas regiões do Norte Fluminense e das Baixadas Litorâneas, onde fatores naturais se combinam à fragmentação dos habitats. No Norte Fluminense, características como relevo, regime de ventos e potencial de formação de ondas elevam o risco, mesmo em áreas onde a vegetação ainda se mantém preservada. “Isso mostra que, sem essa cobertura vegetal, a situação seria ainda mais grave”, destaca Henud.

A região abriga uma das maiores extensões contínuas de restinga herbácea do Brasil, mas enfrenta forte pressão associada à infraestrutura portuária e à expansão urbana. Segundo o estudo, a ampliação de áreas protegidas e a restauração de trechos degradados são estratégias fundamentais para reduzir a fragmentação, fortalecer a proteção da linha de costa e proteger tanto os ecossistemas quanto as comunidades locais.

O que traz a vulnerabilidade da costa fluminense?

A análise considerou variáveis físicas como relevo, ventos, ondas e correntes marítimas, além da cobertura vegetal e do grau de ocupação humana. Henud ressalta que alta vulnerabilidade não significa necessariamente que a erosão já esteja ocorrendo, mas indica maior propensão ao risco. “O vento e as correntes se mostraram decisivos por influenciarem diretamente a formação e a intensidade das ondas. Já do ponto de vista da proteção, a vegetação costeira é um elemento-chave”, explica.

Os pesquisadores reforçam que habitats naturais, como manguezais e restingas, atuam como barreiras naturais capazes de absorver parte da energia das ondas e das tempestades. A remoção desses ecossistemas, segundo o estudo, contribui de forma significativa para o aumento da vulnerabilidade costeira.

Eventos extremos cada vez mais frequentes agravam esse cenário. “O aumento das ressacas intensifica a vulnerabilidade, sobretudo em áreas onde a proteção natural da linha de costa foi reduzida”, acrescenta Abílio Soares. “Em alguns casos, mesmo com a vegetação bem preservada, o risco permanece elevado, o que indica que esses ecossistemas operam no limite de sua capacidade de proteção”.

Mapas e gráficos apresentados no artigo comparam cenários com e sem a presença de habitats naturais ao longo da costa fluminense. Os dados mostram que, na ausência desses ecossistemas, diminuem significativamente as áreas classificadas como de baixo risco e aumentam os trechos de alto risco. Em termos simples, a vegetação costeira funciona como uma barreira natural que ajuda a reduzir o impacto das ondas e das tempestades. Quando ela é removida, a costa fica mais exposta, elevando o risco de danos ambientais, urbanos e econômicos.

Um dos exemplos mais emblemáticos está novamente no Norte Fluminense. “Trata-se de uma região de grande importância ecológica e logística, com presença de portos e outras infraestruturas. A vegetação está fragmentada e, apesar de protegida legalmente em alguns trechos, ainda sofre forte pressão da ação humana”, observa Henud.

Soluções sustentáveis como alternativa frente à crise climática

O estudo defende a implementação de soluções baseadas na natureza (Nature-based Solutions – NbS) como a estratégia mais eficaz e sustentável para enfrentar os desafios impostos pelas mudanças climáticas. Esses recursos incluem a restauração de ecossistemas, o manejo adaptativo do território e a proteção de habitats naturais. Além de reduzir riscos, as NbS oferecem benefícios adicionais, como melhoria da qualidade da água, mitigação de poluentes atmosféricos e aumento da resiliência a desastres.

“Ao contrário das infraestruturas convencionais, essas soluções são ecologicamente sensíveis, economicamente viáveis e sustentáveis no longo prazo”, afirma Henud. A abordagem permite integrar conservação ambiental, impulsionar o desenvolvimento econômico e gerar benefícios tanto para a biodiversidade quanto para as populações costeiras.

Uma lacuna identificada pelos pesquisadores é o fato de que grande parte das áreas legalmente protegidas não inclui habitats costeiros, deixando ecossistemas estratégicos fora do escopo de preservação oficial. A ampliação dessas regiões aparece, portanto, como uma das principais recomendações do estudo para reduzir a fragmentação e fortalecer a resiliência climática.

Vulnerabilidade ambiental e social caminham juntas no litoral fluminense

Outro aspecto inovador da pesquisa foi a incorporação de fatores socioeconômicos na análise de risco. O Rio está entre os estados mais densamente povoados do país e tem sua economia fortemente vinculada ao mar, com atividades como turismo, pesca e exploração de petróleo. Nesse contexto, a supressão da Mata Atlântica, bioma que já perdeu mais de 80% de sua cobertura original, compromete a resiliência ambiental e amplia a exposição a eventos extremos.

Para Henud, o atual modelo de desenvolvimento econômico produz efeitos ambíguos. “Há impactos positivos iniciais, como geração de emprego e renda, mas também ocorre uma supressão ambiental significativa. Exemplos disso são a expansão portuária e grandes obras urbanas, como as realizadas para o campo de golfe na Barra da Tijuca durante as Olimpíadas. Os empreendimentos atraem trabalhadores que se fixam em áreas periféricas sem infraestrutura adequada, o que gera novos impactos ambientais e sociais”, afirma.

Em contraste, comunidades tradicionais mantêm, há séculos, uma relação mais equilibrada com o território ao utilizar os recursos naturais de forma menos intensiva, que permitem sua regeneração. “Já em áreas urbanas, especialmente na Região dos Lagos, a expansão imobiliária avançou de forma acelerada sobre habitats naturais, um processo intensificado a partir da década de 1970”, acrescenta o doutorando.

O professor Abílio Soares ressalta que a pesquisa também analisou a presença de atividades logísticas, como portos, frequentemente instaladas em áreas ambientalmente sensíveis, incluindo zonas de desova de tartarugas e rotas de migração de espécies marinhas. “Muitos desses empreendimentos produzem um impacto socioeconômico positivo inicial, mas não garantem condições dignas de permanência para as populações locais após a fase de implantação. Isso resulta em marginalização social e em pressões adicionais sobre o ambiente, como o desmatamento e a ausência de saneamento”, explica.

Diante desse cenário, o artigo aponta que, além da análise espacial da vulnerabilidade, é essencial mapear projetos de restauração costeira e identificar quem se beneficia dessas iniciativas, de forma a orientar políticas públicas mais inclusivas e eficazes, capazes de articular conservação ambiental e justiça social.

A pesquisa contou com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e da comunidade de pesquisadores do Natural Capital Project, que ofereceu suporte técnico para a aplicação do modelo InVEST. O estudo representa um avanço relevante na integração entre ciência, planejamento ambiental e gestão de riscos climáticos e reforça o papel do Brasil na adoção de soluções baseadas na natureza.

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