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sexta-feira, 11 de abril de 2025

A DITADURA MILITAR E O BOLSONARISMO

Ilustração


Por Rudá Ricci

No dia 1 de abril de 1964, o Brasil mergulhava numa ditadura. Este texto é dedicado a explicar em que aquela ditadura se diferenciaria da que Bolsonaro tentou implantar.

O bolsonarismo é fascista. A ditadura militar de 64 era autoritária. Qual a diferença? Autoritarismo não mobiliza socialmente e tolera certa competição política tutelada.

A partir de 1964, ninguém podia sair às ruas em grupos de mais de três pessoas. Se saísse, logo aparecia um meganha ditando o conhecido "Circulando!". Isso, se fosse um policial pacato.

Na capital Paulista, era comum uma daquelas "baratinhas" da polícia subir na calçada e dela saírem policiais armados jogando o grupo de transeuntes nas paredes.

Era comum exigirem carteira de trabalho. Se não tivessem, davam um "passeio" pela cidade. Nas salas de aula nas universidades era comum um policial "disfarçado" de polícia que gravava as aulas e intimidava. O objetivo era calar e desmobilizar.

Ditadura é isso: desmobilização. E violência. Dias atrás, uma manifestação liderada por Boulos se concentrou no antigo DOI Codi, na rua Tutoia. Lugar famoso.

Muitas histórias de tortura na rua Tutoia e tiros em carros que não diminuíam a velocidade ao passar pelo DOI Codi. Se tinha pressa, levava chumbo. Simples assim.

Ditadura desmobiliza e tutela uma disfarçada disputa política. Durante a ditadura militar, havia MDB e ARENA. Diziam que um era o partido do SIM e outro do SIM, SENHOR.

Nas cidades do interior, até 1974, ser do MDB não pegava bem. Muitos diziam, à boca pequena, que era partido de comunistas e gente fracassada. A oposição, então, criava uma chapa especial da Arena, a Arena 2.

A partir de 1974, o MDB passou a vencer eleições e não parou mais. A ditadura tentou frear, criou leis para manter seu domínio - como a criou o "senador biônico -, mas não deu.

A diferença com o que Bolsonaro iria implantar é clara porque o bolsonarismo é fascista. Fascismo mobiliza e detesta competição política.

Aliás, lideranças fascistas ascendem ao poder pelas vias legais, como ocorreu com Mussolini. No poder, fazem a lambança.

O líder fascista é carismático e inflama a sociedade. É demagogo e diz ser do povo e que no seu governo, os coitados, os não-elite e os lascados irão à forra.

Vingança é a ideia que fascista cultua. Com eles no poder, chega a hora dos ressentidos. Toda mágoa e fracasso passa a ter lugar no camarote do baile brega.

A mobilização social é contra os poderosos, os bem-sucedidos e abastados. Contra a esquerda, os homossexuais, artistas e intelectuais.

A intolerância campeia e, com ela, a ameaça. Fascista ameaça usar a força e prepara o uso concreto. Começa com acampamento e termina com 8 de janeiro.

Ditador usa óculos escuro. Fascista faz motociata. Fascista usa Hugo Boss. Ditador usa cavalo.

Mas, tem algo em comum? Sim, a rejeição da democracia. Ambos manipulam as leis, fazem discursos tortuosos para impor o que querem.

Uns são sisudos e outros são exuberantes. Entretanto, ambos fingem que são honestos, mas não são. Ambos, fingem que são povão, mas não são.

Ambos conspiram contra a nação e a paz. Ambos se apoderam do dinheiro público para perseguir e ameaçar. Ambos são um câncer político e social.

Em 1964, no dia da mentira, se instalou uma ditadura no Brasil. Pegava mal inaugurar uma ditadura nesse dia. Não tiveram dúvida: mudaram a data para 31 de março.

É típico de ditadura: se a cor branca não lhes agrada, pinta-se tudo de marrom. O importante não é à verdade, mas a versão mais conveniente. A fake news.

Publicado com autorização do autor. Postagem original no Facebook.

domingo, 25 de agosto de 2024

EXPLICANDO OS ERROS INDUZIDOS PELO IDEB




POR Rudá Ricci*


Após publicar um artigo na Folha em que comentava os resultados do IDEB e os erros que cometemos nos anos finais do Ensino Fundamental e Ensino Médio no Brasil, fui interpelado nas redes sociais para detalhar um pouco mais a minha tese.

Este breve artigo procura pontuar as minhas questões conceituais e técnicas do processo de educação.

Primeiro, contudo, até por uma questão de honestidade intelectual, preciso deixar claro que sou freireano e tenho como referência as teses de Lev Vygotsky. Vou explicar brevemente o que isso significa.

Paulo Freire contestava o que denominava de "educação bancária". Sua crítica se concentrava no papel de instrutor - às vezes, até adestrador - que o professor assumia. O aluno era visto como totalmente ignorante, um papel em branco a ser preenchido pelo saber do professor.

Freire provou que aprendemos se entendemos o significado do que é ensinado. Sem isso, resta memorizar o que nos é passado, passivamente, sem emoção ou identidade. Na prática, não sabemos a importância real do que nos ensinam.

O IDEB parte de princípios opostos à concepção de Paulo Freire. Parte de um padrão idealizado do aluno, sem relação alguma com sua vida concreta, seus valores. Em outras palavras, é um instrumento típico da educação bancária.

A idealizadora dos testes ao estilo IDEB, Diane Ravitch, escreveu um livro dizendo que este instrumento de avaliação não desenvolve a inteligência, mas ensina a se sair bem nos testes. Seu livro leva o título de “Vida e Morte do grande sistema Escolar Americano: como os testes padronizados e o modelo de mercado ameaçam a educação”.

Já Vygotsky contestou a proposta inglesa de Quociente de Inteligência (QI) . Provou, a partir de inúmeras pesquisas, que a inteligência é desenvolvida por estímulos adequados. Não existiriam humanos que nascem burros ou inteligentes. A diferença estaria nos estímulos.

Vygotsky sustenta que o planejamento para o estímulo correto vem da análise do estágio de desenvolvimento concreto do aluno para, então, se criar um plano exato de estímulos que tocam neste estágio e "puxam" para outro. Algo parecido com um imã.

A questão que fica, então, é: como medir o estágio concreto de desenvolvimento de um aluno? Aqui entra o conceito de desenvolvimento humano que, sugiro, tenha como referência o livro fantástico organizado por Diane Papalia que foi publicado pela editora gaúcha Artes Médicas.

O desenvolvimento humano ocorre a partir de 3 dimensões: o físico, o psicossocial e o cognitivo. O IDEB erra, e a educação brasileira dos últimos anos do ensino fundamental e Ensino Médio, porque foca apenas na dimensão cognitiva. Ocorre que muitos estudos recentes da neurologia indicam que sem estabilidade emocional não há desenvolvimento cognitivo regular. António Damásio é um desses neurologistas que provou esta conexão.

Howard Gardner foi outro neurologista que provou que é um equívoco relacionar o aprendizado de matemática e língua materna como base da inteligência humana.

Para deixar mais nítida minha tese central: educar exige estudo dos professores sobre o que acontece com o aluno fora da sala de aula para relacionar com o que ocorre dentro da sala. Educar não é meramente um exercício de sedução. É ato científico.

O estranho é que na educação infantil e anos iniciais do Ensino Fundamental fazemos o certo. Contudo, ao caminharmos para o Ensino Médio adotamos as técnicos de condicionamento do comportamento ao estilo Pavlov e Skinner.

Por algum motivo, o Brasil abandonou as teses de Paulo Freire, Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro e Florestan Fernandes e caiu nos braços do que há de pior na educação dos EUA.

O interessante é que o melhor programa educacional do mundo é o da Finlândia. E quem são os autores de referência para eles? Paulo Freire e Anísio Teixeira. Não precisa dizer mais nada, não?




Rudá Ricci*
Sociólogo, mestre em ciências políticas, doutor em ciências sociais e corinthiano. Presidente do Instituto Cultiva.

sábado, 25 de novembro de 2023

O déficit das gestões públicas municipais, por Rudá Ricci

Por Rudá Ricci, sociólogo, Instituto Cultiva 

Creiam:
o Brasil não possui cultura de gestão pública local. Temos alguma coisa nos Estados e uma certa tradição federal. Mas não existe uma cultura de gestão pública local. O eleitor não tem idéia de como se toma decisão, em grande parte do país. Estou nesta estrada desde o início dos anos 90, quando comecei a me dedicar a consultorias para instalar sistemas de controle e monitoramento de ações governamentais e modelos de participação da sociedade civil, além de descentralização administrativa.
Há vários problemas, um deles a falta de comunicação entre órgãos. Há experiências interessantes, como a criação de secretarias de interseção que acompanham projetos prioritários (ou estruturantes) instalados em vários órgãos municipais. Mas é uma nítida exceção para a regra do deserto e solidão na tomada de decisões. 

Outro problema é a "ditadura dos funcionários especializados". Existe uma espécie de chacota diária, em que técnicas de carreira desdenham o mandato popular da autoridade pública. Quantas vezes, em minha vida profissional, ouvi um técnica dizer para desconsiderar o que um prefeito ou secretário havia dito!!

Temos, ainda, o tarefismo de gestão, onde a quantidade de projetos conta mais que a qualidade. Não se monitora impacto das ações públicas, mas esforço do governo. Explico: avaliam quantos cursos foram feitos, mas não o resultado prático dos cursos. Outro dia, ouvi um reitor de universidade pública que se orgulhava de ter garantido o mestrado para mais de 200 professores de rede pública. O que ele não disse é que 50% desses professores saíram da rede em seguida, porque com o título haviam conseguido propostas profissionais muito mais vantajosas que a rede de educação.

Não há cultura de gestão pública no Brasil. Tivemos, um dia (há estudos, como de Luciano Martins), uma reflexão a respeito da formação de uma burocracia pública estável e qualificada. Vieram os anos Collor e iniciamos o desmonte desta parca elaboração. Instalamos, simultaneamente, mecanismos de municipalização de serviços antes centralizados em outras esferas públicas e órgãos de gestão pública. Mas mantivemos a meia-sola. O que ficou do desmonte da máquina pública passou a ter um toque de anacronismo.

Acredito que órgãos como TCU ou CGU deveriam ir além da função fiscalizatória e sugerir uma importante atualização da máquina pública. Talvez o Ministério Público também poderia entrar neste esforço. Algum órgão público precisa assumir a tarefa de exigir a construção desta cultura, de uma lógica adequada e eficiente.


Postagem original em 8 de ago. de 2009

terça-feira, 14 de setembro de 2021

GOVERNO DO ERJ LANÇA PORTAL DE TRANSPARÊNCIA DO PACTORJ

Em mais uma etapa do processo de transparência e transformação digital, o Governo do Estado do Rio de Janeiro coloca no ar o site do PactoRJ com informações do programa. A população, a imprensa e os órgãos fiscalizadores poderão ter acesso às etapas de cada projeto (estudo, projeto, licitação, obras e conclusão), o valor empenhado e a data de conclusão prevista. Semanalmente, os cronogramas serão checados e atualizados.

No endereço rjtransparente.rj.gov.br, estão disponíveis informações e imagens de cerca de 50 projetos e 400 ações do PactoRJ por meio de informações e imagens. A plataforma contará também com dados da concessão de saneamento e licitações feitas pelo governo dentro do programa. Os nomes e CNPJs dos três primeiros lugares dos certames poderão ser consultados, dando mais transparência aos processos.

PactoRJ

Em três anos, serão investidos R$ 17 bilhões em oito eixos: infraestrutura, social, saúde, desenvolvimento, educação, segurança, meio ambiente, cultura e lazer. Os 92 municípios fluminenses serão contemplados e mais de 150 mil empregos, gerados.

Núcleo de Imprensa do Governo do Estado do Rio de Janeiro

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

#tbt QUE VENHA 2012!

Hoje li uma postagem super interessante do Rudá Ricci. E o mais legal é que no novo ano teremos eleições municipais. Nos últimos dias que passei na terrinha e também em Niterói, observei um movimento intenso nos bastidores. Há até novatos na lista de pretendentes à vereança. Isso é muito bom...
Depois de não me conter e acabar lendo o livro "A Privataria Tucana", do jornalista Amaury Ribeiro Júnior, tendo a ser menos otimista, mas Ano Novo é vida nova, tempo de esperança, de recomeçar. É claro que o livro não traz ineditismo, em termos de maracutaias e velhacarias todas são conhecidas. Talvez um nome aqui, uma operação mais bem explicada ali, documentos que comprovam acolá, tenham trazido algo de novo no livro. O mais importante, diz o próprio autor no Epílogo, é trazer à tona o tema, mostrar quem é quem, fazer com que a Nação brasileira não se esqueça e que dentro de suas possibilidades tome sua atitude. Afinal, faz-me pensar: onde está o Judiciário? Não me surpreendeu encontrar nomes como Opportunity, Daniel Dantas e outros no livro. Como não me surpreendem citações de brechas da lei e impunidade.
Bem, o mote dessa postagem é o que escreveu o colaborador vagalume Rudá Ricci. Ele postou em seu blogue, sob o título "O que deveria fazer um vereador", comentários interessantes e que valem a pena divulgar:

O QUE DEVERIA FAZER
1) Criar consulta popular por bairro e segmento social para definir prioridades para elaboração de leis
2) Criar comissões técnicas com representação de segmentos sociais vulneráveis (minorias, adolescentes e jovens em situação de risco, áreas de risco)
3) Criar sistema de monitoramento e divulgação popular da execução orçamentária do município
4) Adotar mecanismos de democracia deliberativa no ciclo orçamentário local (PPA, LDO e LOA)
5) Criar jornal municipal semanal (ou quinzenal) da Câmara Municipal, para divulgação das discussões e aprovações das sessões do parlamento local (aqui sugiro sítios na internet também)
6) Criar conselho consultivo com representação social (conselhos municipais, ongs existentes, associação comercial e industrial, sindicatos, OAB e outros) e territorial (bairros e comunidades)
Câmara de Vereadores de Miracema, dez-2011. Foto: Blogue Miracema Fiscalizando

O QUE FAZ
1) Aguarda seis meses após a sua eleição e, então, começa a atacar o Prefeito
2) Negocia benesses com o Executivo (mesmo sendo teoricamente da situação) e inclui o que pode no orçamento a ser votado
3) Mede força para esboçar a nova mesa diretora
4) Contrata assessorias internas e externas (por vários motivos, nem todos explícitos)
5) Distribui bolas de futebol, sacos de cimento, lotes e tudo o mais que conseguir negociar com secretários e Prefeito (consegue cirurgias pelo SUS para seus eleitores)
6) Fala grosso, principalmente nos bares e restaurantes que frequenta. E adota a prática do "morde e assopra", entrecortada por moções de pesar, requerimentos para abertura de discussões e muitas viagens (que rendem diárias...)
As notas em negrito são da blogueira.
Então, meus amigos, comecei a falar de Ano Novo com o vídeo do Guilherme Arantes, continuo com essa postagem para a reflexão dos leitores desse blogue. Depois falo mais...

Postagem original 30-dez-2011

Atualização em 19-ago-2021:

Sobre a colocação do Rudá Ricci, "1) Aguarda seis meses após a sua eleição e, então, começa a atacar o Prefeito", pelo menos na terrinha é bem distinto. Ao contrário, são a extensão das vontades do Executivo.

sábado, 3 de abril de 2021

O fim melancólico do primeiro mandato coletivo de Belo Horizonte

 


Por Rudá Ricci

Prometi escrever algo mais substancioso a respeito do fim melancólico do primeiro mandato coletivo na Câmara Municipal de Belo Horizonte. A ColetivA, mandato com 10 covereadores, faleceu com três meses de existência em virtude da renúncia de Sônia Lansky.

Comecemos por explicar a eterna confusão entre mandato coletivo, gabinetes que se juntam e consulta junto ao seu eleitorado pelo eleito (presencial ou via aplicativos). Não são, nem de longe, a mesma coisa.

Mandato coletivo é o nome que se dá para um acordo que os candidatos (no plural) que estão sob o mesmo número de registro fazem com os seus eleitores. O acordo que define o mandato coletivo – se eleito – se dá nesse momento da campanha: o eleitor sabe que está votando num colegiado, não numa pessoa apenas. Ora, quando a chapa vence, o que toma posse oficialmente é um dos covereadores que teve seu nome registrado. Mas, para o eleitor, todos os outros que fizeram campanha e que se apresentaram como candidatos com aquele número foram eleitos por eles. No caso da ColetivA de BH, Sônia Lansky era candidata juntamente com André Xavier, Dehonara Silveira, Juliana do Carmo, Lara Sousa, Lígia de Laurentiis, Rúbia Ferreira Pinto, Rubinho Giaquinto, Sorângela Maria de Souza e Stella Gontijo. Basta pesquisar os votos em cada seção eleitoral recebida para a chapa que se perceberá a força de representação de cada um desses covereadores. Não se tratava de apoiadores, mas covereadores, representantes em mosaico de um único registro.

Já a junção de gabinetes de vereadores já eleitos é um mero arranjo organizacional de vereadores. Arranjo decidido pelos vereadores, não por seus eleitores. Destaco, aqui, o processo decisório que define de onde vem o mando. Houve, em eleição passada, campanha similiar à de um mandato coletivo em Belo Horizonte, mas a experiência após a posse não foi tão radical como a que se apresentava no caso da ColetivA.

Também não se pode afirmar que um método de consulta de um vereador eleito junto ao seu eleitorado configure um mandato coletivo. Justamente porque o processo de decisão é concentrado na figura do vereador, não dos seus apoiadores. Uma plenária presencial – como já ocorreu décadas atrás com veradores ou deputados eleitos por professores ou bancários ou outro agrupamento social – ou o uso de um aplicativo para eleitores definirem o que um vereador deve priorizar na Câmara não passa de consulta. Não se trata de processo participativo em que a decisão é tomada pelo conjunto, no caso, dos covereadores.

Pois bem, esse tipo de prática fere de morte a lógica da representação liberal, firmada a partir da teoria das elites onde os eleitores elegem um representante que passa a formar uma elite paga para pensar com acuidade a tomada de decisão de todo processo de gestão pública. Nesse sentido, afirmam os defensores da teoria das elites, o eleitor teria menos tempo que o eleito para refletir e para negociar com outros vereadores, de outras regiões, interesses e ideologias. O eleito vai se distanciando do eleitor porque assume uma função profissionalizada, marcada por acordos e negociações que o cidadão médio nunca terá condições para realizar.

A ColetivA dizia algo muito distinto: tinha um pé no campo institucional e outro nos bairros, nos coletivos por direitos civis e coletivos. Apontava para o século XXI, o século das multidões e coletivos forjados à luz das redes sociais.

Dito isso, vamos à tragédia que destruiu a ColetivA em Belo Horizonte. Há toda uma comoção envolvendo os covereadores eleitos com Sônia Lansky, mas uma dose de realismo indica que agora eles sobreviverão de favor. Seu mandato virou um espectro que ronda a capital mineira. Não há mais vínculo entre o acordo original durante a eleição e sua relação profissional com a Câmara Municipal. A renúncia de Sônia Lansky destruiu essa ponte.
O que ocorreu, afinal?

O principal fator de ruptura é a revolução surda que um modelo coletivo de representação causa na lógica burocrática centralizada da estrutura política brasileira e na representação liberal, individual e elitista, da democracia representativa tal como adotamos no Brasil.

Na montagem da chapa dos covereadores já se percebia alguma fragilidade. Houve disputa em relação à legenda de vereador, disputa vencida por Sônia Lanksy. Foram realizadas plenárias e várias discussões internas até que surgiu esta solução salomônica: o mandato coletivo. Poderia ter sido uma formulação ousada, fincada numa concepção avançada de representação parlamentar.

Contudo, a fragilidade da montagem da chapa indicava forte descompasso e, talvez, uma decisão não tão madura: em meio à campanha, alguns covereadores defendiam o nome do candidato à prefeito do PT e outros, o nome da candidata do PSOL. A questão é que o registro da candidatura coletiva foi feita pelo PT. Essa é apenas uma das ilustrações sobre a ausência de unidade que alimentou muito emocionalismo na condução desta experiência. Havia ali uma concessão que feria uma lógica partidária histórica. De onde, então, esta concessão provinha? De qual instância partidária? Em qual fórum se definiu que esta lógica multifacetada e até mesmo multipartidária havia sido aceita?

Faço essa consideração não para sugerir que a ColetivA foi um erro, mas para apontar tensões em curso que colocavam o carro em rota de colisão com o caciquismo reinante na política partidária.

A situação era ainda mais angustiante em função da candidatura de Nilmário Miranda, o candidato à prefeito do PT em Belo Horizonte. Nilmário, de certa maneira, foi “cristianizado”, conceito derivado do nome do candidato do PSD à presidência da república em 1950, Cristiano Machado, que foi abandonado pelos líderes de seu partido que apoiaram, de fato, Getúlio Vargas, do PTB. Uma disputa que remonta aos conflitos entre as duas lideranças petistas em Minas Gerais: Patrus Ananias e Fernando Pimentel.

Há quem diga que o grupo de Fernando Pimentel evitou ao máximo a reeleição de Pedro Patrus, filho de Patrus Ananias, como vereador. Esta disputa vem de longe, desde a mudança de rumos da concepção de gestão (de Patrus para Pimentel), passando à malevolência em relação à candidatura de Patrus ao governo do Estado na composição da chapa com Hélio Costa ou a mesma malevolência do pleito de Pimentel à legenda para o senado. Agora, veio, dizem, o troco em relação à Pedro Patrus.

Não bastasse tal tensão, emerge a luta em torno da Maternidade Leonina Leonor, gerando rachaduras nas relações amigáveis entre governo municipal e a direção petista local.

Mas, a gota d´água foi a elegebilidade de Lula, pela decisão do ministro Fachin. A necessidade de composição política em Belo Horizonte tornou-se um imperativo superior já que Minas Gerais é o segundo colégio eleitoral estadual do país.

A partir daí, as tensões foram crescentes.

Pelo que eu soube, a alta cúpula partidária não foi pega de surpresa com a renúncia de Sônia Lansky. Mesmo assim, não houve nenhuma reação interna de peso ou significativa. Houve acenos e cordialidades que na política real não conta para quase nada.

E, assim, uma novidade de radicalização democrática acabou. Melancolicamente.

sábado, 25 de abril de 2020

BOLSONARO, MORO E GLOBO NOS TRATAM COMO MANADA

Ilustração

Por Rudá Ricci

É estarrecedor a realidade ser jogada em nossa cara da forma como foi ontem. Somos governados por um dos mais desqualificados brasileiros de todos os tempos. Como alguém, ocupando o cargo mais importante da República, fala, em pronunciamento à nação, a palavra "escrotização"?

O que faz um Presidente da República descer tão baixo a ponto de, num pronunciamento público, afirmar que seu filho é um pegador de meninas do condomínio onde reside, expondo a intimidade de mulheres que não o autorizaram a expor sua vida em cadeia nacional?

O que faz, num ato de incontinência verbal, informar à nação que tem parentes que falsificam documentos e já foram condenados pela justiça?

Não, não se trata de expiação. Bolsonaro não se redimiu publicamente. Ao contrário, enalteceu crimes e abusos. O Presidente da República!!!!

O que faz um ex-juiz, mais uma vez, vazar conversas reservadas e, pior, expor que pediu uma ajuda ilegal à sua família com dinheiro público? Um ex-juiz que diz que luta contra a corrupção resolveu atualizar a carta de Pero Vaz de Caminha?

O que fizemos para deslizar tanto moralmente e chegar a este circo mambembe de final de estrada? Imagino o desserviço na formação moral de tantos jovens que olham a lavação de roupa suja de dois desnorteados brasileiros que parecem ter assaltado a alma da nação.

Ontem, soubemos, Bolsonaro e Moro cometeram crimes. Os dois. Vários. Ambos merecem ter seus direitos políticos suspensos. É o mínimo para restabelecermos parâmetros morais na política nacional.

Os dois estão errados. Um, ao menos, mentiu. E fica por isso mesmo? Agora, mentir se tornou arma de ascensão política? É assim que os marqueteiros do caos orientam seus clientes?
"Mintam que os brasileiros gostam?"

É hora de exigirmos uma punição exemplar. Recuperar nossos valores básicos. Acabar com esse abuso diário de distorção da base dos valores dos brasileiros. Não somos uma nação de mentirosos, de escroques, de gente safada. Somos gente que cria redes espontâneas de ajuda aos desalentados. Aliás, os bolsonaristas não estão nas redes de solidariedade que envolvem igrejas, sindicatos, movimentos sociais, organizações populares. Não. Eles estão nas redes xingando e afirmando que nada está ocorrendo. Criam um mundo paralelo que desconsidera o próximo.

Sindicatos abrem suas portas para acolher a população de rua; doam recursos para ONGs produzirem máscaras; sindicatos de professores distribuem cestas básicas para professores temporários que perderam seus contratos em virtude da suspensão de aulas. Onde estão os apoiadores de Bolsonaro e Moro?

Temos que dar um basta a esse pessoal sem parâmetro moral algum. Gente que só sabe usar nossos valores para distorcê-los na sua cruzada contra a lista de inimigos que aumenta diariamente. É gente doente, sem perspectiva e autocontrole. Gente que nos intoxica diariamente.
E, ainda, temos a rede Globo, tentando nos manipular como sempre. Trabalha com o infantil script do bandido contra o mocinho. Tenta, há anos, fazer o Presidente da República. Mas, quem acompanha os dados sabe que a Globo não interfere mais na opinião pública sobre política. Dados do ESEB (Estudo Eleitoral Brasileiro), a maior pesquisa nacional sobre perfil do eleitor, indicam que desde 2006, a maioria dos brasileiros não segue o JN para tomar posição. A Globo não conteve a eleição de Lula e Dilma, não conteve a rejeição a Temer, não elegeu Alckmin.

Ontem, o JN tentou nos manipular, apresentando um “paladino da justiça” que comete crimes. Só não foi pior que a CNN que deu voz ao esquema todo da Lava Jato, já desmascarado pelo The Intercept. Fez um jornalismo desequilibrado, tendencioso, novamente confundindo notícia com opinião.

Somos vistos assim: um bando de incautos facilmente manobrados, uma manada.

Basta!

*Publicado originalmente no perfil do autor no Facebook, aqui.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

IHU-UNISINOS: RUDÁ RICCI ANALISA A DECISÃO DO STF SOBRE HABBEAS CORPUS DO EX-PRESIDENTE LULA

1) Qual sua avaliação do julgamento de habeas corpus do ex-presidente Lula pelo STF?
R: Não houve uma surpresa. Vários analistas sugeriam que a votação teria como placar 6 a 5 ou 7 a 3 (sem voto de minerva da Presidente). Também indicavam que o voto de Rosa Weber definiria o resultado final. Havia claro indício que seria concedido o HC por uma margem pequena. Contudo, a pressão dos maiores órgãos de imprensa e a ameaça de generais fez a balança pender para o outro lado. Isto porque, a presidência atual do STF é fortemente impactada pela possibilidade de instabilidade social ou política no Brasil. É conhecida por costumeiramente ouvir lideranças politicas conservadoras para medir a temperatura política às vésperas de algum julgamento relevante.

2) Qual será o impacto político da condenação do ex-presidente Lula?
R: O impacto político será imenso e desastroso. Em perspectiva, é possível perceber que houve, nos dias anteriores, uma escalada da violência política no país, com assassinatos de políticos e lideranças sociais e ataque, com armas de fogo, à caravana de Lula no sul do país. Às vésperas da decisão do STF, as forças de extrema-direita (como o MBL), organizaram manifestações em algumas capitais. Enfim, a ofensiva foi toda da extrema-direita, seja dessas organizações juvenis, seja de milicianos ou de alguns ruralistas. A decisão do STF joga no colo da extrema-direita um gosto de vitória que lhe dará muita energia. E criará grande desolação na militância de base petista, já que a direção partidária não preparou, em nenhum momento, os filiados para retomar a ofensiva política. Ao contrário: jogou todas as fichas no processo eleitoral e, em especial, na candidatura de Lula. Já as forças de centro-direita e direita estão no poder, mas sem popularidade e poder de iniciativa real. Não conseguem controlar os arroubos da ação direta da extrema-direita, que geram este clima de instabilidade num país que se mexicaniza aceleradamente (se aproxima da violência política do México ou da Colômbia). Acredito que ingressaremos num período de trevas, com ameaças constantes (já que as atuais foram vitoriosas) ao governo de plantão. Nosso problema não será a eleição deste ano, mas a governabilidade do eleito.

3) Quais são as perspectivas políticas daqui para frente, considerando o resultado do julgamento?
R: As perspectivas são bem ruins. O clima de chantagem e ameaças e, eventualmente, de ações diretas violentas contra lideranças sociais e políticos de esquerda deve se ampliar ou se consolidar como expediente de forças sociais com pendor fascista. Tais forças estão fora do sistema partidário (ou possuem pouca influência) e do campo institucional. São forças ainda não articuladas nacionalmente, mas que agem com motivações similares: impor sua vontade pela força ou ameaça de desestabilização política. Elas saíram vitoriosas. Evidentemente que as forças governistas ou anti-lulistas tentam diminuir o risco da ação do monstro que alimentaram. Segmentos dessas forças anti-lulistas que não fazem parte das hostes de extrema-direita nem mesmo entenderam o perigo que está posto neste momento. Perceberão em breve. Se não neste ano, com certeza terão uma noção do descontrole político do país em 2019.

Disponível em: <https://www.facebook.com/ruda.ricci/posts/10155757526021843>, em 05abr2018, 22h15. Entrevista concedida à IHU--UNISINOS, disponibilizada no Facebook pelo entrevistado.
http://www.ihu.unisinos.br/

sábado, 13 de setembro de 2014

DEMOCRACIA PARTICIPATIVA




Rudá Ricci
Fórum DCA de São Paulo
Escola Nacional Florestan Fernandes, 24 de novembro de 2009


1.       A NOSSA DEMOCRACIA PARTICIPATIVA

Democracia Participativa significa controle social, co-gestão ou autogestão.
Vejamos cada uma dessas modalidades. Controle Social significa gestão de políticas públicas pela população (pelos cidadãos) de uma localidade, com financiamento de órgão de governo, o que aproxima em muito do conceito de autogestão. Este conceito, que dá uma impressão de intransigência porque praticamente elimina a autoridade de um governo, foi elaborado na década e 1970, por Sherry Arnstein. Este autor criou uma escala que define nitidamente o que é participação do cidadão ou poder real da cidadania, definida em oito estágios:


 A co-gestão significa um degrau abaixo (a partir da escala de Arnstein) em relação ao controle social, porque se orienta pela relação de poder equilibrada entre governo e cidadãos na gestão de políticas públicas locais.
Em todas modalidades, a democracia participativa apresenta alguns elementos centrais, a saber:
÷      Estruturas colegiadas de tomada de decisão
÷      Monitoramento de métodos e resultados de políticas públicas
÷      Descentralização administrativa
÷      Estruturas híbridas no interior do Estado

Em relação ao último item apresentado, é preciso esclarecer que não se trata de conselhos populares,definidos por Trotsky como poder que rivalizava (o poder dual) com o Estado burguês num período revolucionário. Ao contrário, as estruturas híbridas de Estado são canais institucionais de participação da sociedade civil no interior do Estado. Não são, portanto, sovietes. Tanto que estão estabelecidas em vários artigos da Constituição Federal.
São eles:


Artigo 1º: representação ou poder direto do cidadão




Seguridade Social: artigo 194 indica, no seu inciso VII, o caráter democrático e descentralizado da administração, mediante gestão quadripartite, com participação dos trabalhadores, dos empregadores, dos aposentados e do Governo nos órgãos colegiados



Saúde: artigo 198, em seu inciso III, indica a participação da comunidade nas ações e serviços públicos de saúde que integram a rede regionalizada e hierarquizada;
Política Assistência Social: no artigo 204 da CF, em seu inciso II, estabelece a participação da população, por meio de organizações representativas, na formulação das políticas e no controle das ações em todos os níveis.
Há, ainda, outras orientações constitucionais no que diz respeito à educação (artigo 206, inciso VI), direitos da criança, adolescente e idoso (artigo 227, parágrafo 7). 


Seguiram-se as Leis Orgânicas da Saúde e da Assistência Social, o Estatuto da Criança e Adolescente, o Estatuto da Cidade, todos adotando o mesmo espírito participacionista, ou da democracia participativa. Este espírito também orientou a organização da estrutura de gestão das águas, do meio ambiente e do PRONAF (apoio estatal ao desenvolvimento da agricultura familiar).
A rede de gestão (ou co-gestão) formada envolve, hoje, 30 mil conselhos de gestão pública ou de direitos, inseridas na estrutura formal do Estado brasileiro. Levantamento recente do IBGE indicou que 75% dos municípios brasileiros adotam alguma modalidade de participação na condução das políticas públicas.
Os Municípios com população até 10 mil habitantes possuem, em média, 4,42 conselhos, chegando a 7,92 conselhos para aqueles com população superior a 500 mil habitantes.
Os conselhos de saúde (98% dos municípios), assistência social (91%), educação (91%) e direitos da criança e adolescente (72%) são os que apresentam maior inserção no país .
Os resultados sociais e mesmo de mudança do processo decisório das políticas públicas foram pífios até aqui. Pelo contrário, o aumento do valor do salário mínimo, segundo a FGV-RJ, teve um impacto muito mais significativo sobre a realidade social do país (impacto de 70% sobre ascensão das classes D e E para classe C) que as de transferência de renda ou oriundas desta estrutura de co-gestão.
O que acende um sinal amarelo, ao menos. Mesmo porque, muitas pesquisas recentes indicaram uma cultura política nacional conservadora ou até reacionária, demonstrando pouco impacto na cultura democrática e solidária do país.
No caso específico da educação, a título de ilustração, da população infanto-juvenil que freqüenta escola, 20,4% afirmam que precisam ajudar nos afazeres domésticos ou trabalhar para ajudar no orçamento familiar. Ainda mais: as desigualdades regionais persistem, assim como as desigualdades entre o meio rural e as cidades: a média de anos de estudo (acima de 15 anos) é de 4,3 no campo e 7,6 na cidade; o analfabetismo atinge 24,1% da população do campo e apenas 7,8% da cidade.
Tal situação incita a pensarmos mais adiante. Um rol de questões parecem se fazer necessário para criarmos controle público sobre a rede de gestão participativa. Destacaria as seguintes:

1 Quem fiscaliza os conselhos?

2 Por que não há eleição direta para escolha dos representantes da sociedade civil, evitando a formação de vínculos de fidelidade interna?

3 Por que os conselhos não são regionalizados ou possuem estruturas descentralizadas?

4 Por que não se impede que entidades que dirigem os conselhos sejam beneficiadas por recursos públicos que os próprios conselhos aprovam?

5 Como garantir uma ação pública, com estrutura territorial, em rede?

As perguntas indicadas sugerem uma agenda. Uma agenda que articule esta rede de gestão pública participativa. No que tange aos direitos da criança e adolescente, uma agenda que indique:

Articulação Política
  •  Intenção política em relação a esta rede de conselhos de direitos da criança e adolescente
  •  Criação de articulações entre eles, por regiões, por Estado, por redes inter-conselho
  • Substituição das estruturas de gestão atual (centradas nas figuras dos secretários de governo e ministros) pelas estruturas colegiadas dos conselhos
  • Punição das autoridades públicas que não cumprem as deliberações dos conselhos
  • Articulação dos diversos fóruns nacionais (de Reforma Política, de Participação Popular, Brasil do Orçamento) nos temas relacionados às pautas dos conselhos de direitos e/ou setoriais
Educação para a Cidadania

         Criação de rede de Escolas da Cidadania, estrutura de formação permanente dos conselheiros
         Socialização de experiências exitosas como OP Criança, Escola da Cidadania de Adolescentes, Educação Fiscal, Cursos à Distância, entre outras.

Monitoramento de Direitos e Políticas Públicas

         Avaliação nacional de todas frentes e programas que garantem os direitos 
         Sistema de monitoramento de resultados
         Centralidade na defesa da vida e direitos e não apenas a lei e as especialidades (sub-temáticas e regionais) de cada entidade e fórum de defesa e promoção de direitos. Este é o caso da adoção de política “Do pré-natal ao Primeiro Emprego”, que poderia substituir pautas fragmentadas e absolutamente técnicas (como o foco no detalhamento do sistema de informações, um tema de transparência do Estado que não poderia demandar discussões nacionais em detrimento de pautas específicas de avanço dos direitos e combate á exploração infanto-juvenil).

2. UM OUTRO PROBLEMA: A MUDANÇA DOS MOVIMENTOS SOCIAIS

Uma constatação recente nos alerta e gera temor: a maioria dos movimentos sociais brasileiros transformou-se em organização popular. Não se trata de uma mera nomenclatura. As organizações são estruturas permanentes, com corpo administrativo, com orçamento planejado. Ao se transformarem em organizações, muitos movimentos sociais disputam o “mercado de financiamento” das ONGs.
Já um movimento social luta por novos direitos ou efetivação de direitos já legalizados, não possui hierarquia formal, seu método de tomada de decisão é marcado pelo assembleísmo ou democracia direta, se expressa pelo conflito.
Um movimento social se legitima pela pressão, pela mobilização social.
Contudo, nos anos 1990, as lideranças sociais se tornaram gestores. O Estado se retraiu e gerou parcerias com ONGs e entidades da sociedade civil (proposta de Estado Gerencial de FHC).
As iniciativas de educação popular (uma marca da organização popular para o controle social, desde o final dos anos 1970) se pulverizaram e, muitas vezes, se tornaram um fim (captação de recursos e sobrevivência das organizações) e não um meio para o aumento da democracia em nosso país.
As conferências de direitos, que se multiplicaram nos últimos cinco anos, passaram a adotar como pauta as agendas do governo federal, com raras exceções.
Simultaneamente, o Brasil emerge como a 7ª potência econômica do mundo e ganha status diferenciado no FMI. Diminuem os financiamentos externos para o Brasil e devem minguar nos próximos 5 anos (crise européia e dos EUA).
Fica, assim, a dúvida: estaremos construindo (ainda que involuntariamente) um mercado? E, ainda: o que tal projeção afeta na condução dos projetos políticos e sociais que desaguou no participacionismo inscrito em nossa Constituição e várias leis federais?
Vivemos, assim, três grandes riscos:


Risco 01: afastamento das lideranças sociais de suas bases (institucionalização sem representação)
Conseqüência: cooptação institucional do líder e desarticulação do projeto educacional

Risco 02: aumento do teor emocional do discurso da liderança para se legitimar como interlocutor do Estado – o discurso genérico
Conseqüência: esgotamento da capacidade de mobilização e emergência de formas neoclientelistas

Risco 03: limitação da pauta da liderança (o representante delegado, corporativo) – o discurso focalizado
Conseqüência: neocorporativismo e projeto educacional com formação de quadros e coesão da organização

O temor é de estarmos caminhando para abraçar o discurso da eficácia e eficiência, nos afastando da questão original que seria a reforma democrática do Estado (a “invasão” da sociedade civil).
Se assim for, estaremos substituindo a educação política para o empoderamento e controle social, por conteúdos técnicos de gestão e gerenciamento, nos afastando do que denominamos de educação popular para caminhar para a educação social.
A educação política, insisto, é uma questão central em todo projeto participacionista, porque dialoga com a cultura conservadora ou ambivalente de nossa população. Hoje, o currículo mínimo desta educação deve contemplar conhecimentos concretos, focados em:

¡      Saber gerar informações
¡      Saber elaborar projetos públicos
¡      Saber monitorar
¡      Saber articular e comunicar

Uma rede de escolas da cidadania que dialogue com o mundo real do cotidiano da vida social e política de nosso país é a exigência do momento. Porque afastamo-nos do mundo real e enredamos pelos escaninhos do Estado burocrático brasileiro. 
Retornar ao projeto original significaria uma “volta para o futuro”. Não é uma tarefa fácil. Mesmo porque, trata-se, reafirmo, de um diálogo franco com nossa cultura ambivalente, que oscila entre a tradição e a inovação, entre o conservadorismo moralista e a ousadia carnavalizada, entre a participação e espera da tutela.
O fato é que assim como a cultura política de massas é ambivalente em nosso país, nossa experiência recente de gestão e democracia participativa também se revelou ambivalente. O que faz de uma possível vanguarda e inovação parte integrante de toda vida política de nosso país. Somos inovadores, “ma non troppo”. Somos menos ousados e inovadores do que nos imaginávamos. Algo que, aliás, Chico Buarque e Ruy Guerra já haviam sugerido em Calabar, que utilizo para concluir este olhar crítico sobre nossas aventuras e desventuras:

Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito,
Desencontrado, eu mesmo me contesto.
Se trago as mãos distantes do meu peito,
É que há distância entre intenção e gesto.
E, se meu coração nas mãos estreito,
Me assombra a súbita impressão de incesto.
Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadura à proa,
Mas o meu peito se desabotoa.
E, se a sentença se anuncia, bruta,
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa.

Postada originalmente em 03dez2009.

terça-feira, 10 de junho de 2014

DISCUSSÃO SOBRE O DECRETO QUE INSTITUIU A POLÍTICA E O SISTEMA NACIONAIS DE PARTICIPAÇÃO SOCIAL

O debate sobre o decreto instituído pela presidente Dilma Rousseff, que instituiu a Política Nacional de Participação Social (PNPS) e o Sistema Nacional de Participação Social (SNPS) tem sido acirrado e marcado pelo clima eleitoral. Alguns jornalistas chegam a criar situações para criticar o decreto, que estão completamente fora da realidade.
No Programa Painel, discutiu-se o tema bem ao estilo Globo de analisar, oposicionista. Assistam aqui.
O sociólogo Rudá Ricci gravou um vídeo e divulgou em seu site, que é bem interessante e ilustra a tendência e estilo GLobo de ser do jornalista de atua como coordenador do debate no programa da Globonews.

"Rudá Ricci comenta o equívoco de William Waack sobre "democracia direta" e "democracia representativa" e explica tais conceitos.Vale muito a pena assistir. Dê o play! Fala Rudá!"

domingo, 1 de junho de 2014

"A OUTRA POLÍTICA QUE EMERGIU DAS RUAS"

Há quase um ano das jornadas de junho, que reuniu milhares de manifestantes pelo Brasil, o sociólogo Rudá Ricci lança livro sobre o que significou a onda de protestos que o País não via desde o impeachment de Collor
Por Adriana Delorenzo (Fotos: Reprodução/Patrick Arley)
ruda ricci
Rudá Ricci: nas ruas, jovens foram ao encontro da política (Divulgação)
Os protestos de junho de 2013 trouxeram ao Brasil a experiência de manifestações já experimentadas na Primavera Árabe, na Espanha e nos Estados Unidos, com o Occupy Wall Street, entre outras mobilizações organizadas pelas redes sociais. Quem são esses jovens que foram às ruas questionar as instituições atuais e os limites da democracia representativa?
Das ruas nasceu a ideia do livro recém-lançado pelo sociólogo Rudá Ricci, com imagens de Patrick Arley, que busca explicar as manifestações e o seu legado. Nas ruas – a outra política que emergiu em junho de 2013 (Editora Letramento) traz reflexões sobre as novas formas de organização de uma juventude plural quanto às pautas levadas aos protestos.
Leia a seguir a entrevista com o autor, que dá pistas para entender o que mudou.
Fórum – Em seu livro, o senhor fala de uma outra política que emergiu em junho de 2013. Como é essa nova política?
Rudá Ricci – É principalmente a forma e o método, não o conteúdo. As manifestações de junho revelaram essa nova juventude, que surpreendentemente parte da imprensa e dos sociólogos tentou classificar a partir do que aconteceu em São Paulo, que foi absolutamente distinto do que aconteceu nas outras cidades onde ocorreram manifestações em junho. Uma parte identificou como sendo de direita e, na verdade, o que a gente viu foi uma juventude que é expressão do que vários estudos, principalmente da Europa, mas também do Brasil, vêm identificando como geração Y. É uma geração de jovens, entre 20 e 30 anos, que teve um tempo de convívio com a sua família muito pequeno, inclusive em função das exigências do mercado de trabalho. Temos teses defendidas em diversas universidades que vêm revelando que, nos grandes centros urbanos brasileiros, o tempo de convívio familiar de jovens acima de 15 anos que ainda moram com os pais é de uma hora e meia por dia. Isso soma a manhã, quando eles acordam, depois os pais vão trabalhar e os filhos vão para a escola, e depois à noite, quando eles retornam. E a rotina é cada um em seu computador ou vendo televisão. Isso significa que aquele papel das famílias – do século XVII para cá – de socialização primária, de aprendizagem da convivência, valores e assim por diante, está completamente interditado ou comprometido desde os anos 1980, principalmente a partir dos anos 1990.
O que os estudos vêm revelando? Que esses pré-adolescentes, adolescentes e jovens estão aprendendo a linguagem, os valores, a forma de se vestir e de se comportar com tribos urbanas, grupos, comunidades muito fechadas, que se autoprotegem e têm uma fortíssima afinidade pessoal. A marca da relação é a afetividade. Esse tipo de criação, de núcleos de solidariedade comunitárias dos jovens, que alguns chamam de subcultura juvenil, se expressa de maneira totalmente ajustada nas redes sociais.
A forma como os jovens interpretam o seu envolvimento nas redes sociais é que eles estão fechados em comunidades. É como se eles estivessem no palco e só vissem alguns atores, e não toda a plateia. É uma sensação que também adultos experimentam quando assistem a um filme no cinema; de repente ele entra na tela e esquece que está sentado junto com mais pessoas. É uma transferência, meio fantasiosa, para uma outra realidade. Isso explica porque muitos jovens acordam de manhã e põem no Facebook: ‘Hoje não acordei bem’. Para uma pessoa da minha idade, tenho 51 anos, parece que é uma loucura, que devassa a privacidade, a intimidade. Mas não é exatamente assim que funciona para os jovens. Eles não estão postando para um cara do Japão ver. Eles estão postando para dali a pouco os seus amigos de sua comunidade começarem a vir ao seu encontro. E vão. É muito interessante quando uma pessoa posta alguma coisa desse tipo, em pouquíssimos segundos começam a aparecer 10, 15 amigos, e falam “o que você tem”, “por que você não toma um chá?”.
Fórum – É uma conversa entre a comunidade desse jovem…
Ricci – É a família. O conceito que a gente tinha de família no mundo moderno. Esse conceito de educação das famílias do século XVII para cá se transportou agora para essas comunidades juvenis. E as manifestações de junho expressaram social e publicamente essa soma de inúmeras comunidades. É uma bobagem gente da minha idade, ou nós de esquerda, exigirmos que eles exponham uma pauta fechada, porque a história de vida deles é uma pauta aberta e, mais do que isso, quando eles se encontram em comunidade não é público. Eles se organizam em pequenas comunidades. Às vezes são milhares, mas mesmo assim são pequenas, três mil –  vale lembrar que o pessoal do rolezinho chegou a 60 mil –, mas não é algo tão grandioso como uma ágora pública. Eles vivem as comunidades como uma expressão das intenções pessoais. A individualidade é muito forte para eles. O sentimento, a angústia, a solidão, as músicas, o desejo, a frustração, tudo isso é tema central nas redes sociais. Eles não têm valores muito claros da política. São muito revoltados, têm um ressentimento muito grande em relação ao espaço público. Seria pedir demais que essa juventude, abandonada pelos adultos, tivesse a capacidade de elaborar uma pauta. O que eles tinham eram desejos individuais ou grupais expressos em cartolinas que eles iam preenchendo na hora. Essa é a nova política.
O que a gente tem que entender é que o espaço público para os pré-adolescentes, adolescentes e jovens até 30 anos, hoje, em função de toda essa característica sociológica onde eles estão mergulhados, não é do espaço público. E eles se somam a partir de identidades individuais e grupais. Nesse sentido, junho foi um carnaval político. Como todo carnaval, cada um vestido do seu jeito, indo além do limite, transgredindo, dentro da ordem. Muitos deles tinham expressões, inclusive, de comportamento de roqueiro. As ruas foram uma expressão de afetividade e dessa característica grupal dos jovens.
Não podemos falar que eles são contra partidos porque eles não se expressam em partidos. Eles não se expressam em associações, em pastorais. Eles são dessa geração abandonada e grupal, tribal. O que estou querendo dizer é que, primeiro, nós não tivemos cuidado e paciência para enxergar o que eles são. A gente quis enquadrá-los e rotulá-los dentro das certezas, inclusive teóricas, que nós construímos na nossa vida adulta.
O segundo ponto é que foi a primeira vez em que pré-adolescentes, adolescentes e jovens experimentaram a ocupação do espaço público nos últimos 12 anos com o advento do Lulismo e a mobilidade social fantástica no Brasil. Nesse sentido, junho foi uma escola de formação política, e nós, adultos, não cumprimos o nosso papel. Nós aplacamos esse pessoal.
Tinha gente fascista, tinha. Mas era a minoria. A direita não existe como expressão política no Brasil. Eles só vivem por golpe.
Essa é a primeira expressão mais importante, expressão da juventude, do afeto, da fragmentação. Da ausência de uma pauta unificada, de uma organização central. É uma somatória de comunidades que se expressam nas redes sociais, mas não só, já se expressavam antes. De jovens que hoje não têm convívio com a sua família. Então a sua família é um grupo.
Fórum – Mas podemos dizer que a pauta do transporte unificou o início das manifestações?
Ricci – Por vários fatores. Em primeiro lugar porque envolve jovens. Era uma pauta específica de jovens, principalmente universitários e secundaristas, que já estavam em luta há pelo menos cinco anos. Que fizeram a “Revolta do Buzu” e “Revolta da Catraca”. Estavam no Sul e no Nordeste. Já estavam nas ruas. A diferença é que houve o estopim por conta da violência. Mas havia um ressentimento que estava latente no Brasil. Isso porque, no mês anterior, em maio, houve o boato do fim do Bolsa Família, que levou 920 mil beneficiários à Caixa Econômica Federal em três dias. Isso já revelava o sentimento da população que tem uma melhor avaliação sobre o Lulismo, que já sentia insegurança em relação à economia. Para algo ser verossímil, um boato, precisa ter um certo pé na realidade. Essa boataria e a reação de quase 1 milhão de beneficiários já revelava que tinha uma percepção popular de que a economia não estava indo bem. Ou seja, aquela euforia de 2010, no último ano de Lula, já tinha se dispersado no ano passado. Tanto que, com as manifestações de junho, o impacto sobre grande parte da população que não estava na rua foi enorme. Ou seja, houve uma comoção nacional. Caíram os índices de popularidade da Dilma e de todos os outros políticos. A interpretação que eu faço é que a gente já tinha, no final de 2012, e em 2013, uma sensação grande no Brasil de que a política não estava mais representada. Junho mostrou que grande parte dos jovens, – que tem uma postura histórica cínica em relação à política, ou seja, “eu só voto porque é obrigatório, porque tudo é um nojo” – na rua, em protesto, estavam indo ao encontro da política. Por isso, a proposta da Dilma do plebiscito era fantástica. Porque o que eles estavam dizendo é o seguinte “vocês são ruins”, “não gosto de vocês”, mas “nós estamos falando com vocês, e a gente quer mudanças”.
O que havia antes era um cinismo fortíssimo no Brasil e isso ficou evidente num livro que saiu no final do ano passado, Vozes do Bolsa Família [de Alessandro Pinzani, Walquiria Domingues Leão Rego/Editora Unesp].Foram cinco anos de entrevistas com as mulheres beneficiárias do programa em vários estados do país. O livro revela exatamente isso que eu estou falando. Ao invés de aparecer um curral eleitoral, o que aparece são mulheres muito pragmáticas, sofridas, que acham que elas têm direito ao Bolsa Família porque os “políticos roubam”. Elas identificam que Lula e o PT fazem parte dessa corja, e elas dizem que se não fossem obrigadas, não votariam. Daí perguntam a elas em quem votaram nas últimas eleições para presidente: para o Lula. “Mas acabaram de falar que todo mundo é igual”, e as mulheres respondem: “ele hoje é igual, mas um dia ele foi pobre como a gente”. Aí tem um traço de identidade. Ou seja, quando eu voto, faço uma comparação, e aí o diferencial é que elas acham que o Lula sente porque sabe o que é pobreza e fome.
Tento traçar uma linha com esses dados que a gente tem hoje de um dos segmentos que não saíram às ruas, de coerência ou de convergência entre essa postura cínica e pragmática de grande parte da população brasileira. Ou seja, já que eu tenho que votar porque tudo é a mesma coisa, voto sem compromisso nenhum naquele que eu acho que pelo menos pode fazer uma coisa por mim. É a postura ativa, não passiva, que foi a dos meninos em junho, essa é a nova política. Além de ela ser muito estranha, com valores totalmente diferentes do mundo moderno do século 20, nós também estamos vendo um jeito de dialogar com a política pela agressão, pelo confronto, que os velhos que comandam a política institucional no Brasil não souberam captar e dialogar. Talvez a única que tenha feito isso foi a Dilma. E mesmo assim alguns parlamentares do PT ficaram desesperados com a proposta dela, porque perderiam poder se tivesse plebiscito. Ficaram contra porque são conservadores e esses jovens são absolutamente progressistas.
As manifestações de junho tinham um ethos de esquerda, não tinha nada de direita, embora tivesse gente de direita. Eles ocuparam o espaço público, confrontaram os valores conservadores, queriam a participação na política, falavam de uma pauta de questões públicas, falavam de política para todos, não eram racistas, a maioria defendia a agenda de ampliação de direitos civis. A pauta do transporte foi estopim nas cidades onde o MPL [Movimento Passe Livre] já estava presente, mas em Belo Horizonte não foi. Em Recife não foi. Em Brasília não foi. Nas cidades do interior não foi. Foi basicamente em São Paulo e no Sul. E daí, como a imprensa paulista é muito forte, ela meio que impôs uma interpretação, que na verdade não fazia parte do resto do país.
Fórum – O livro traz um capítulo sobre Belo Horizonte. Quais foram as principais características dos protestos na capital mineira?
Ricci – Não dava para publicarmos sobre muitas cidades, escolhemos fazer um estudo de caso sobre BH. Os comitês populares da Copa também identificaram Belo Horizonte como a mobilização mais organizada do país. O que BH tinha? Já havia reuniões discutindo as manifestações na Copa num sindicato de esquerda, o Sindrede, que estava cedendo o local para reunir o Comitê de Atingidos pela Copa de BH (Copac). O comitê  organizava todos aqueles que foram impactados negativamente pelas obras de preparação da Copa, inclusive da Copa das Confederações. Eram as prostitutas, que têm como ponto as imediações do Mineirão e também das vias que ligam o centro ao Mineirão; os vendedores barraqueiros. São mais de 150 famílias. Aqueles que foram despejados  de suas moradias no entorno das obras. Esse pessoal do comitê participou, no início de 2013, de um seminário na FAU/USP, coordenado pela Raquel Rolnik, que é a principal intelectual referência de todos os comitês populares da Copa no Brasil inteiro. Eles despertaram, nesse seminário, para a questão dos impactos negativos das obras. Estavam fazendo as reuniões para discutir. Esse pessoal começa a convocar uma série de ações nas ruas, que eles chamam de “copelada”, era para jogar futebol e discutir. Resolveram fazer uma “copelada” maior no primeiro jogo da copa das confederações na Savassi. Quando eles postaram o evento no Facebook já tinha acontecido a manifestação em São Paulo, do dia 13. Quando postaram, levaram um susto, tinha mais de 30 mil pessoas confirmadas. Perceberam que ia ser muito forte. Ali já tinha uma pauta absolutamente fragmentada. O Copac convocou as manifestações contra os gastos da Copa: “Queremos um país padrão Fifa”. Mas tinham as feministas, a população de rua. Ali já se percebia que não tinha essa pauta de São Paulo, do transporte.
Era uma festa, nunca tinha visto isso nem na campanha pelas Diretas. Na Diretas, quem deu o tom foram os partidos de esquerda. Em 1992, no impeachment, eram os jovens com a UNE.  Parece que a cada dez anos, temos essa explosão de um país que é desigual. Essas manifestações têm cada vez menos instituições comandando. Uma era partido, depois os estudantes, daí o Lula ganha e nós temos junho com cultura anarquista e autonomista.

Vemos que essas saídas da esquerda tradicional goraram nos últimos dez anos. A gente tem que ser humilde para saber que existe um outro jovem. Quando a gente era jovem, assustamos o pessoal do partidão. Agora, esses meninos estão assustando a gente, que fundou o PT, a CUT. Em vez de ficar assustados, temos que lembrar do nosso passado e não ir pra cima. Acho que a Marilena Chauí fez um desserviço ao país ao falar que os protestos lembravam a origem do fascismo.
Fórum – E o que podemos esperar das manifestações durante a Copa do Mundo?
Ricci – Não podemos esperar desse tipo de protestos – vale lembrar que tivemos também os rolezinhos, e acho que estamos a um ponto de ter manifestação dos beneficiários do Bolsa Família – que haja mudança institucional, porque os meninos não querem saber do campo institucional. São movimentos provisórios, iguais à Primavera Árabe, ao M-15, na Espanha, ao Occupy, à Revolução das Panelas, na Islândia, e também na Argentina, nas assembleias populares que derrubaram o [Fernando] De La Rua. Em nenhuma dessas grandes manifestações populares de protesto se constituiu um movimento social. Foram só mobilizações e nenhuma mudou, de fato, o campo institucional, pelo contrário. O De La Rua caiu, logo depois vem o Kirchnerismo. Na Islândia, veio a socialdemocracia. E no ano passado voltaram de novo todos os partidos que haviam derrubado com a Revolução das Panelas. Eles não têm a lógica do século 20, não olham para o campo institucional, fazem uma mobilização que é uma expressão emocional.
Vai ter manifestação em junho porque estão se preparando, estão fazendo reuniões periódicas, já fizeram com o MST, MAB, feministas, quilombolas, indígenas. Vai ter e sabem que vai ter violência. Os comitês não são violentos, não têm nada a ver com Black Block, mas perceberam que os governos não chamam para dialogar. Acho que as manifestações vão ser bem menores, porque estamos falando de Copa do Mundo, é o Brasil de chuteira. O impacto vai ser pequeno, porém, se o Brasil for mal na Copa, e a economia continuar andando mal, uma manifestação na rua pode ser um canal da expressão dessa insatisfação. Aí é o imponderável e eu não saberia dizer. Temos um ambiente que pode ser explosivo. Duvido nesse momento, mas se a seleção brasileira for mal, talvez canalize.
nas ruas
Obra também traz imagens de junho de 2013
Fórum – Outro debate reacendido após junho de 2013 é sobre a lei antiterror. Como o senhor vê essas propostas?
Ricci – Sobre a lei antiterror, estou abismado com a reação do Governo Federal, principalmente do Ministério da Justiça. Se pegarmos a escalada do discurso da reação, depois da proposta da Dilma de diálogo pelo plebiscito, você vai ver que é uma postura fascista contra as manifestações de jovens. O que o governo fez em outubro: chamou uma reunião dos secretários de segurança pública e o ministro da Justiça [José Eduardo Cardozo], que falou em separar o joio do trigo – e aqueles que são violentos seriam presos e criminalizados – , só não explicou como ia fazer isso, já que Black Bloc não é um grupo, é uma tática. Existem vários grupos Black Bloc nas manifestações, não um só.
Depois dessa reunião, temos o Manual da Garantia da Lei e da Ordem. E no final, o manual diz explicitamente que é preciso conter os movimentos sociais no Brasil. Não fala em protesto, fala em movimento social. Temos, com a morte do jornalista no Rio [Santiago Andrade], algo que nunca imaginei que iria ver,  uma liderança sindical do PT, como Paulo Paim, se desesperar e falar que tinha que votar com urgência a lei antiterror. Essa sim é uma postura fascista do Governo Federal. É intolerância, criminalização. Isso é um absurdo no Brasil, e muda totalmente o tom do Lulismo. A questão central é: como a Dilma, que, na época do AI-5, pegou em armas, imagina que os jovens vão reagir, criminalizando todos indistintamente como potenciais terroristas? O que ela poderia ter feito? Chamado publicamente todos os comitês populares da Copa. Essa é a cultura que foi criada originalmente no PT, do diálogo. De tentar criar uma pauta comum. Era essa noção de política pública do PT. É tentar expressar as demandas sociais numa política de Estado. E não uma política ultraconservadora e reacionária, de usar o aparelho de Estado contra o cidadão. Nós já temos leis suficientes para prender quem cometeu um crime.

Entrevista concedida à REvista Forum, disponível em http://rudaricci.blogspot.com.br/2014/05/minha-entrevista-para-revista-forum.html

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