A FIAÇÃO E TECELAGEM SÃO MARTINO
A FÁBRICA E A MINHA INFÂNCIA
Desde que me entendo por gente, a “Fábrica de Tecidos de Miracema” fez parte da minha vida.
Ainda pequeno, assistia meu pai chegar em casa com os cabelos cheios de fragmentos de algodão, vindo da usina de algodão, onde conferia os fardos chegados de Minas em caminhões. Era o primeiro passo da verticalização do processo industrial: descaroçar o algodão, prepará-lo para a fiação e, depois, seguir para a tecelagem. Havia variados padrões de tecido; lembro-me de alguns: morim, sarja, riscado e crepom. O processo era finalizado na tinturaria, antes de o material ser estocado na chamada “sala de panos”.
Fundada em 1906, a fábrica chegou às nossas mãos em 1937, quando foi adquirida por meu avô, Efrem Assed Kik, e seu sócio, Wady Cury, pouco antes do funcionamento da Usina de Beneficiamento do Algodão.
Quando vim ao mundo, em 1947, ela já estava havia dez anos conosco. A compra foi decisiva para que eu nascesse em Miracema, uma vez que meu pai, filho do primeiro casamento de meu avô, trabalhava na antiga Leopoldina Railway, no Rio de Janeiro — pasmem — como telegrafista. Ele, seu irmão Chaquib, o primo Alfredo Salomão e José Cury, filho de Wady, vieram de Monção — hoje Italva — e de Campos para se radicarem e trabalharem na Princesinha do Noroeste Fluminense. Aqui, pelo menos os dois primeiros vieram para ficar e constituir família.
Os pioneiros levantaram a firma, enfrentaram a concorrência regional, especialmente a de Cataguases, além de outras em nível nacional. A fábrica se firmou, cresceu e prosperou.
A São Martino chegou a ter mais de 400 funcionários, funcionando, às vezes, em três e até quatro turnos, das cinco da manhã às onze da noite. Antes da CLT, distribuía lucros de acordo com a produção e os resultados; com a chegada da nova legislação, as relações trabalhistas se modificaram. Era motivo de orgulho dizer: “trabalho na Fábrica”.
Eu adorava ir para lá, brincar, conversar e, naturalmente, levar broncas quando extrapolava da curiosidade para a traquinagem. Sebastião Silva, Tião Beretta, Seu Braz, Zé Durão, Seu Rabello — os contadores —, Cleir Brandão, Zé Domingos e Carlinhos Durão sempre me recebiam muito bem.
Muitos dos meus ídolos trabalhavam na fábrica: Tarciso, Zé Bolão, Ataíde, Zé Augusto e Chocalho, craques do Tupã. O time era formado predominantemente por funcionários da São Martino, a maioria morando no então bairro chamado Campo do América. Sim, o Tupã era o meu time de coração. Era conhecido por todos como “o time da fábrica”, embora oficialmente não o fosse. Tinha em sua zaga central Newton Casa Nova e Ferrugem (Télio Mercante); na lateral direita, atuava Ciro Siqueira; na meia esquerda, Nijo; de centroavante até Bilu e Cleto, filhos do Seu Manoel Rogério, todos vestiram a camisa vermelha.
Foi também nessa época da infância que fui apresentado à morte. Meu tio Chaquib, Alfredo Salomão e um outro homem, cujo nome a memória já não alcança, foram a Caratinga comprar algodão e discutir preços e prazos de entrega. Na volta, foram colhidos por um acidente inesperado, que vitimou fatalmente meu tio.
Até hoje trago viva na memória a imagem dele no esquife, na sala de jantar de sua casa, na Rua Direita. Com a inocência das crianças, fui recebido por Eduardo, meu primo e filho mais velho dele, que me disse apenas:
— Papai morreu.
Coluna "Conversa com o tempo", de Alexandre Pinto Cardoso, capa da edição maio/26
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