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sábado, 15 de agosto de 2026

DEU NO JORNAL LIBERDADE DE EXPRESSÃO ED. AGOSTO/2026, P.8

 


Uma das principais diferenças entre o tombamento realizado pelo Município de Miracema, em 1995, e o promovido pelo Estado do Rio de Janeiro, em 2009, está na forma como cada um compreendeu o patrimônio cultural da cidade e elaborou sua proteção legal. 

O tombamento municipal concentrou-se nos imóveis considerados de maior valor arquitetônico e histórico, privilegiando edificações como os sobrados residenciais, os edifícios públicos e a Igreja Matriz. Essa visão era inspirada, em certa medida, pelos primeiros processos de preservação por tombamento adotados no Brasil, quando se protegiam por lei as igrejas, fortalezas, sedes de fazendas e outras construções de caráter excepcional, principalmente datados do período colonial, como se fossem eles os melhores exemplares da cultura brasileira a serem preservados. 

Já o tombamento estadual adotou uma concepção mais abrangente de patrimônio. Em vez de proteger apenas edificações isoladas, buscou preservar o ambiente onde esses imóveis se situam. Essa abordagem reconhece que a identidade de uma cidade não é construída apenas por seus monumentos, mas também pelo conjunto de ruas, praças e edificações que formam sua paisagem histórica. Com esse entendimento foi definido o Conjunto Arquitetônico, Paisagístico e Urbanístico do Centro Histórico de Miracema, área compreendida entre a Praça Getúlio Vargas e a Praça Josephina de Barros Tostes (esta popularmente conhecida como Praça do Marcelino). 

Muitas pessoas consideraram (e ainda consideram) excessiva a inclusão de imóveis mais recentes, como exemplares da arquitetura em estilo Art Déco que chegou tardiamente a Miracema (década de 1940), algumas edifi cações modernistas e diversas residências de arquitetura mais simples. No entanto, embora não apresentem o mesmo caráter monumental de outros bens, esses imóveis desempenham papel fundamental na composição da paisagem urbana e na preservação da memória coletiva. 

A proteção dessas construções permite compreender a evolução arquitetônica da cidade ao longo do século XX, revelando diferentes fases de seu crescimento e de sua ocupação. Além disso, contribui para manter a harmonia do conjunto urbano, oferecendo aos moradores e visitantes uma leitura mais fiel da história de Miracema. 

Preservar um centro histórico significa compreender que seu valor reside tanto nos grandes monumentos quanto nas construções mais modestas. São justamente esses imóveis, muitas vezes discretos, que formam a paisagem cotidiana, preservam a escala urbana e contam a história da evolução da cidade. Sem eles, os edifícios monumentais tornam-se elementos isolados, desconectados do contexto que lhes confere significado. Valorizar esse patrimônio é, portanto, garantir que as futuras gerações possam conhecer Miracema não apenas por seus edifícios mais imponentes, mas pela autenticidade de todo o seu conjunto histórico.

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